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quinta-feira, março 18, 2010

Do BLOG DA EMILIA TAKAHASHI
 Após anos de imagens, o contorno se forma na linha do horizonte.


No final das nove horas de viagem de ônibus entre Dar Es Salaam e Moshi, o gigante se eleva, na vasta planície da Tanzânia.

Uma das maravilhas da Tanzânia, o contrate na paisagem. O imponente Kilimanjaro com seus 5.891 metros.
O plano é enfrentar a subida direta pela rota conhecida por Western Branch, reaberta há algum tempo após alguns incidentes. Em janeiro de 2006 ela foi fechada após quatro pessoas morrerem por deslizamento de rochas. O guia é obrigatório no parque e mais o porteador para transportar comida e barracas, somos em 3 pessoas no grupo. O porteador também me auxiliaria em carregar parte do meu peso no dia do ataque ao cume, pegando uma rota paralela diretamente para o acampamento Millenium, já na rota de descida.

Partimos do portão Machame, onde a rota homônima é uma das mais populares. Varias expedições se preparavam para saída. O peso dos porteadores é controlado pelos guardaparques: 20 quilos por pessoa. O primeiro dia, a subida é leve e tranqüila até o Machame Hut. O que pesou foram as chuvas torrenciais que nem as grandes árvores da floresta conseguiram segurar. A quase 3000 metros de altitude já faz frio, e com as roupas molhadas se tornou congelante. Pelo menos nos livra dos mosquitos. Depois da chuva, o céu azul aparece e tenho a primeira vista do cume do Kibo. O Kilimanjaro e formado por 3 vulcões, 3 explosões do passado. A primeira e Shira, mais antiga, a segunda Mawenza e a ultima e mais alta e chamada de Kibo.

No segundo dia a subida se acentua até o acampamento Shira, não leva mais que cinco horas. A chuva começa a cessar transformando agora em meros chuviscos. O terceiro dia separa os grupos ao nível das nuvens. Quem faz a rota Machame só faz uma caminhada de aclimatação por Lava Tower, a 4630m , depois desce para Barranco Hut. Nós montamos as barracas em Lava Tower fazendo companhia a um outro grupo já estabelecido. Meu guia sentindo o peso de um grupo reduzido (normalmente uma expedição conta com 2 porteadores por pessoa, fora cozinheiro e guias) decide alterar os planos e acampar no Barrafu Hut, mais próximo ao cume. Para isso teremos que carregar todo o peso morro acima, inclusive meus 15 quilos de mochila. Nunca havia carregado tanto peso no dia do ataque ao cume, temi a subida.

Dia seguinte acampamos em Arrow Glacier a 4876m, distante apenas a uma hora e meia de Lava Tower, aos pés da parede, uma mistura de gelo e rocha. Comecei a ter sintomas de altitude: dor de cabeça e falta de apetite. A insônia nessa noite talvez ocorreu pelo fato de ter dormido a tarde inteira ou pela tensão do que me esperava no dia seguinte.

A partir da meia noite não dormi mais. O vento comia lá fora e não me animei a me mexer até as 3 horas da manha, horário combinado para despertar. Após um breve café da manhã, lá pelas quatro horas partimos montanha acima. O solo vulcânico é quebradiço e move a favor da gravidade principalmente nas partes mais inclinadas.

Sinto o peso nas costas cada vez mais que a altitude se eleva. Há muitas partes de gelo e graças ao meu piolet, Ali cava pequenas escadas nas rampas perigosas. Sem cordas e segurança, só olhava morro abaixo sem muita imaginação de onde iria parar se houvesse um escorregão.

O sol nasce iluminando o grande Monte Meru acompanhado pela sombra do nosso cume quilômetros de distancia. Minhas forças vão se esvaindo, combinando os poucos dias de aclimatação e os quilos nas costas. Peço ajuda para meu guia nas últimas horas de escalaminhada.

Depois de quase 8 horas chegamos ao topo da subida. Estava acabada. Normalmente se leva entre 4 e 5 horas esse trajeto. Eu crucificava meu guia por ter me feito subir com tanto peso. Para agravar Ali perdeu seus óculos escuros e sua visão começava a ficar prejudicada.

A superfície do topo é grande, com grandes blocos de gelo flutuando sobre o solo rochoso e o pico Uhuru, o ponto mais alto. O plano de conhecer a cratera foi por água abaixo devido a hora avançada e meu estado lastimável. Pelo menos o Uhuru peak acho que consigo subir. Caminhamos até o Crater Camp e começamos a trilha direta para o Uhuru. Após algum tempo, Ali percebe muita neve na trilha e muda de planos novamente. Vamos descer e ir para Stella Point e subir de lá.

Caminhava fraquíssima, aos tropeços, com a sensação de que iria morrer a qualquer hora, falência múltipla. Esse sentimento de altitude e possível, falta oxigênio no cérebro e nos músculos. Quando chegamos em Stella Point já pensava em desistir do pico. Pensava em descer e descansar. Perguntei se poderia voltar no dia seguinte, se me sentisse melhor.

A resposta foi um silencio.
Baixei a cabeça, mergulhei no vazio, e agora?

Quando levantei o olhar e virei a cabeça em direção ao pico, consegui avistar o marco do Uhuru peak ao longe, e com uma subida não muito acentuada.

Se essa é minha única chance, não sou de desistir do cume. Vou tentar, vamos lá.

Deixamos tudo, todo o peso em Stella Point e começamos a caminhar 'pole pole', lentamente, passo a passo. O sol já arrebentava parte do meu rosto exposto. Entre terra e neve avançava as últimas rampas. Nem estava acreditando, eu iria conseguir!

Quase duas horas depois, avisto as placas de madeira no final do penhasco. Porque tudo tem que ser tão longe?
As placas vão se aproximando. Ao chegar aos pés do marco, sento no solo, exausta.

O Kilimanjaro tem fama de não ser um cume tão difícil e não achava que iria me emocionar. Depois de todo o esforço e complicações, não deixou de acontecer. Lagrimas saíram dos meus olhos já inchados pela altitude e pouca hidratação. Eu estava lá.
As nuvens rodeiam o vasto cume. Após a tradicional sessão de fotos, começamos a outra metade do martírio.

A descida ate Stella Point foi tranqüila, cruzamos com um ultimo grupo ainda subindo. O problema foi pegar minha mochila novamente. A velocidade diminuiu, não conseguia coordenar minhas pernas para descer rápido. Avistava o acampamento ao longe. A descida segue por ziguezagues em areia vulcânica. O grupo que cruzamos na descida já me ultrapassava. As barracas ao longe continuavam minúsculas. O sol começou a se recolher.

Na penumbra do anoitecer, descíamos a última rampa em direção as barracas.
Nem consegui ajudar Ali a montar a barraca. Ele pediu auxilio de uma outra pessoa. Entrei no meu ninho, deitei e não me mexi até o dia seguinte.

Pela manhã, Ali aparece na porta da minha barraca, sua visão estava mal. Meus músculos estavam cansados. Caminhamos lentamente montanha abaixo. Chegamos no acampamento Millenium e Jumar nos preparou um belo café da manhã. Estávamos famintos após um dia de ataque ao cume sem quase comer direito há 30 horas. A descida sempre monótona só era quebrada por guias e porteadores que utilizam a rota Mweka por ser a mais curta. Levamos 5 horas do acampamento até o portão de controle. Meus dedões do pé latejavam de dor da pressão da descida. Um taxi nos esperava prontamente. Salve Dullah! Recebi meu certificado e meu corpo senta dentro do carro aliviado, acostumando rapidamente com os prazeres da civilização.

A escalada ao Kilimanjaro não é técnica, nem quando tento complicar um pouco com a rota mais difícil. A Western Branch é uma escalaminhada com alguns trechos expostos. O desafio continua a ser a altitude no curto prazo de aclimatação, e no meu caso, agravado pelo peso da mochila. O misticismo envolvido no histórico dessa montanha e sua imagem vista ao longe o faz uma escalada especial, entre uma cultura de povos tribais dessa terra que hoje chama Tanzânia.
Emilia chega ao cume do Kilimanjaro

Após uma subida desgastante, com pouca aclimatação e carregando a sua pesada mochila montanha acima, Emilia chegou exausta ao cume.

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